
Ainda podia senti-lo, não tinha como saber se ainda vivia ou se estava em meu leito eternal. Distante o som do vento e luzes apagadas em cada olhar. Não poderia pensar em paz de espírito se ofegava a minha própria vida ao ninguém, talvez houvesse um alguém, no indecifrável longe. Desespero. Abismo, o meu, dentro da alma. Despencara da maior ilusão que a angústia nunca havia provado anteriormente - solidão. Percebi que ainda vivia, mas as suas particulas se moviam intensamente em minhas veias, queimando como fogo, adoecendo minha fantasia. Os objetos não tinham mais formas completas, tudo estara metade, como a vida feita de ódio. A paródia particular começara. Um último teor se formara, mais forte, como a minha transpiração de gelo estava se desfazendo por ser a dose mais possante. Já pudera perceber todos os olhares em volta e o negro nas vestes, nos rostos de meus senhores e ex-amores. As palavras celestiais pregadas pelo sacerdote, a última corda vocal antes do silêncio absoluto. Eu estava em meu buraco, na última página em que não há continuação da história, interrompida por uma seringa. As taças de champanhes vazias e a certeza de que nunca mais veria as minhas meias bagunçadas ou sentir algum resquício de emoção. Em coma eterno repousei e deixei os meus dias seguirem um rumo diferente do meu, só me resta o gosto de seu veneno que ficará em mim até que a carne apodreça ficando apenas o oco frágil. Uma tarde que encerrara e em mim ficara o remorso inalterável de meu erro fatal.

Dureza dos ossos transparecendo na prosa o que sentimos quando negamos os nossos amores, como enfermidade de um vício. Obstinados somos, estultos de não aceitarmos o perdão das flores ou quando deixamos a própria reciprocidade carente. Nos tornamos o vazio.
O desleixo de sempre achar que tudo possuí, afinal a destreza é sempre maior que a fidelidade, todos somos imunes ao amor - ilusão. Uma vez uma meretriz popular nos anos 70, em seu leito, me dissera com toda a tristeza e fervor nas palavras que sentira falta do amar em toda a sua vida, naquela hora se despedira de seu próprio sangue e o deixara para trás apenas as noites secas de todos os seus homens. Seu único desejo da carne acabara com o tempo e o que restara foi a carcaça podre. Podre mais ainda por dentro.
A sabedoria do homem - hipocrisia - julga o poder dos amantes em fraqueza da espécie, quando o alguém tem a própria rosa dos ventos que os levam para o melhor caminho a seguir. Seguir adiante com o escudo para combater o amor, assim estamos guardados para desfrutar de outros sentimentos, mas nunca o amor.
Os ossos e coração, de qualquer animal, não suporta a armadura por toda a vida e sempre chega o fim em que desabamos, sozinhos, e queremos a flor, linda e apaixonada, agora completamente invadida por veneno em todos os seus espinhos.